Já foi o tempo em que ela se perdia das preocupações, agora, deu para estar perdida nelas. Sempre esperou pelo "eu também" que lhe acarinhasse os ouvidos, mas nunca disse nada que pudesse voltar para si. De olhos abertos, ela deixou de ver a televisão para assistir às imagens que sua memória resgatava e remoldava com ar de perfeição. Talvez nada que ela pudesse ver alí, viveu de fato. Mas foi tão real como um sonho é antes que se acorde. Viu a mão feminina que tanto queria em seu rosto agora, lhe puxar pela cintura e lhe empurrar para um corpo novo. Essas duas já haviam começado do meio.
Do meio para o fim. Do copo que se quebrou na discussão, da raiva que rasgou a fotografia, do telefone que não tocou, e da carta que nunca chegou. Só o seu segredo permaneceu a salvo no silêncio: quando deitada ao lado da outra, sempre traiu o que dizia para sonhar em estar sozinha. Sozinha não seria tão ruim assim. Mas foi.
Depois as ruas. Todas as pessoas que lhe chamavam a atenção em todas essas malditas ruas eram iguais. Atraiam sua vontade, e traiam sua sensatez. Queria esquecer dos cabelos escuros, dos olhos castanhos, dos dedos finos, do cheiro de menino.
A cortina ainda dançava na janela quando despertou da distração, e o som da cidade que invadiu a sala lhe trouxe de volta a razão. Foi então que tirou os pés de cima do sofá e passou a deixá-los no chão.
O chá esfriou na mesa, o cigarro virou cinza de cinzeiro, e a saudade ficou. A saudade ficou pedurada como um quadro triste na parede.
Caiu de muito alto e caiu em si, em cima de si mesma. É que existem coisas que sempre serão suas, mas jamais irão lhe pertencer.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
mãos dadas com a ironia
Vamos desprezar nossos corações, vamos conhecer pessoas novas, dar espaço para outras invasões. Vamos abrir as portas, os braços e as pernas. Vamos nos trair, em boa hora para sujar nossos rostos e bocas. Vai, podemos contradizer nossas verdades e nos proteger com o perigo. Cair e quebrar os joelhos para desaprender a levantar. Eu posso fingir que não dói porque sei mentir. E se eu não quisesse tanto o contrário, já teria me perdido no vazio da mais falsa liberdade. Mas alguma coisa em você me mostrou que liberdade é algo mais parecido com se livrar do resto do mundo.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
décimo
Me dá você pra mim? Te compro de novo se já te vendi. Você nunca teve uma etiqueta com qualquer preço, e jamais te vi exposto em uma vitrine. Te encontrei no presente mais perfeito que a gente viveu, ele nem precisou de embrulho. Mas olha, não se preocupe, eu sei que essas coisas custam caro. E pode ter a certeza de que vou investir em cada beijo com seu sabor, todo abraço de lua cheia e conversa de fim de noite. Acho que ainda somos dois adolescentes sempre planejando a melhor parte da juventude. Então me deixa sempre sentir sua essência escondida no perfume do seu pescoço. Preciso tanto me perder do caminho de casa nos seus cabelos, nos seus olhos castanhos, nas suas mãos confortáveis. Vamos visitar cada canto nosso, andar como donos de uma cidade tão pequena quanto a breve beleza dos dias em que os seus sorrisos me fizeram feliz. A gente pode conquistar o mundo, ou apenas podemos conquistar o chão da praça mais bonita ao deitar e olhar as estrelas. Eu, olharei sempre pra você. Prometo que vou colocar sua foto num porta retrato na minha cabeceira, e que hoje eu quero você mais do que já quis ontem.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
falta
Juro que não sei o que você fez das minhas noites. Sem você elas são intermináveis, trocam de lugar com o tédio, me pintam olheiras, e fazem do sono algo inquietante. Fico horas brincando de mudar de posição na cama, pensando em tudo, e tudo te tem de alguma forma.
Nunca estiquei tanto minha imaginação como nesses últimos meses. É de sentir meus lábios beijando suas pálpebras para que seu sono venha junto com o meu. Poder dormir sem dizer adeus, até logo, ou qualquer coisa parecida. Tão real quanto sentir seu cheiro no abraço mais apertado. É tanta imaginação, que me faz acreditar na morte do final no recomeço de começos.
Juro que não sei o que você fez de mim. Certamente colocou uma etiqueta com seu nome dentro dos meus sonhos. São seus ou só sonho com você aqui, agora.
Então eu senti que faltava algo pela manhã, talvez um livro novo para ler, ou aquele seu beijo de bom dia. A gente não escolhe por quem cair, e nem sempre dá vontade de escolher... a gente só cai.
E você pode até achar engraçado o jeito como eu quero estar perto sempre, mesmo de longe. Então, espere por amanhã, espere só por amanhã! Que eu faço desses dias de tentativa de distancia uma corda para te puxar, te trazer até aqui... sem te amarrar.
Não sei por que, e preciso perguntar... será que será sempre tudo tão previsível assim? Eu já sabia disso quando comecei. E também sei que seria impossível deixar, só deixar como está.
Eu vejo que as vezes fica difícil de acreditar em você.
Então, vou apenas acreditar em nós.
Nunca estiquei tanto minha imaginação como nesses últimos meses. É de sentir meus lábios beijando suas pálpebras para que seu sono venha junto com o meu. Poder dormir sem dizer adeus, até logo, ou qualquer coisa parecida. Tão real quanto sentir seu cheiro no abraço mais apertado. É tanta imaginação, que me faz acreditar na morte do final no recomeço de começos.
Juro que não sei o que você fez de mim. Certamente colocou uma etiqueta com seu nome dentro dos meus sonhos. São seus ou só sonho com você aqui, agora.
Então eu senti que faltava algo pela manhã, talvez um livro novo para ler, ou aquele seu beijo de bom dia. A gente não escolhe por quem cair, e nem sempre dá vontade de escolher... a gente só cai.
E você pode até achar engraçado o jeito como eu quero estar perto sempre, mesmo de longe. Então, espere por amanhã, espere só por amanhã! Que eu faço desses dias de tentativa de distancia uma corda para te puxar, te trazer até aqui... sem te amarrar.
Não sei por que, e preciso perguntar... será que será sempre tudo tão previsível assim? Eu já sabia disso quando comecei. E também sei que seria impossível deixar, só deixar como está.
Eu vejo que as vezes fica difícil de acreditar em você.
Então, vou apenas acreditar em nós.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Closer:
"- Don't stop loving me. I can see it draining out of you. It's me, remember? It was a stupid thing to do and it meant nothing. If you love me enough, you'll forgive me. Where is this love? I can't see it, I can't touch it. I can't feel it. I can hear it. I can hear some words, but I can't do anything with your easy words. You don't know the first thing about love, because you don't understand compromise".
domingo, 16 de novembro de 2008
não esquecer:
de que só amor não basta.
de que as palavras não contém um único significado.
de ter ações, causar reações.
de ler nas entrelinhas.
de não deduzir.
de mim.
sábado, 15 de novembro de 2008
Falando em cenas
Essa foi a mais triste que eu já protagonizei. Não se pode sair do mar sem levar ao menos uma gota, e você me enxugou, e eu me encharquei, de chuva, de frio, de medo. A cada passo, parecia que meu coração se enroscava no seu sapato... era como se ele quisesse te puxar de volta, mas tudo o que conseguia era ser pisado. Eu senti os meus ossos enfraquecerem no momento que eu mais precisei deles, mas estabilizei quando entrei no clichê abraço aos joelhos, e desse jeito, próximo aos joelhos, se abria uma nova ferida.
E nessa cena você nem olhou pra trás.
E nessa cena você nem olhou pra trás.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
va i d a d e...
Marcelle tinha ido para o banho. A noite prometia ser ótima, e ela prometia se arrumar à altura. Eu já previa que ficaria no seu quarto por intermináveis duas horas. Sozinha com todas as suas coisas, escolhi dar uma olhada no seu diário. Abri bem no meio, em uma folha marcada por um clips que segurava a embalagem do maço de um malboro vermelho.
"Tem vezes que o cigarro é o único que me acompanha, não perde o passo. Queima conforme o meu fôlego, queima o meu fôlego. Tem dias que é só ele quem me beija a boca e intimida a solidão. Odeio a solidão e, por isso, ao fim do último trago, enfim o salto do filtro ao asfalto, confiro o maço a procura de outro. Maltrata a minha garganta e os meus dentes, altera o meu perfume e a minha imagem, mas eu gosto mesmo assim."
Bom, ela gosta.
"Tem vezes que o cigarro é o único que me acompanha, não perde o passo. Queima conforme o meu fôlego, queima o meu fôlego. Tem dias que é só ele quem me beija a boca e intimida a solidão. Odeio a solidão e, por isso, ao fim do último trago, enfim o salto do filtro ao asfalto, confiro o maço a procura de outro. Maltrata a minha garganta e os meus dentes, altera o meu perfume e a minha imagem, mas eu gosto mesmo assim."
Bom, ela gosta.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
[nomeretirado]
Vamos começar pela lua. Como pode ser tão grande e caber nos seus olhos? É um tipo de reflexo que eu queria em mim. E depois, é ela quem fica de lanterna para os nossos passos quando é noite. Nunca nem escondi que prefiro as noites, que prefiro esquecer a hora de voltar, que te prefiro quando o céu está escuro. Em pensar que as estrelas sempre vão precisar do céu apagado para brilhar, alheia a isto, mesmo quando já se fez manhã e estamos indo para nossas casas, a lua permanece mais algumas horas pendurada a cima de nossas cabeças.
Prender as mãos, mantê-las cruzando nossos pulsos. Tenho certeza que elas odeiam os postes e as esquinas complicadas que tentam separá-las. Mal consigo me importar se as palmas estão suadas, ou tremendamente geladas, enquanto simplesmente estivermos de mãos dadas. E carinho, carinho se mostra com mãos, com um leve toque, seja nos cabelos, no braço, na perna, nos pés, ou desenhando a forma do rosto. As suas mãos falam. Aquela mão tímida que quebra a distância de uma mesa para dois, atravessando pratos, copos e saleiros em busca de companhia. Aquela mão que me cutuca discretamente enquanto qualquer um fala, só para que eu saiba que pensamos na mesma coisa. Aquela sua mão que me aperta a cintura, que me puxa com força para levar a minha boca até a sua.
O seu gosto não me enjoa, não me farta, não tem fim. Decorei cada pedacinho da sua boca, você sabe, preciso dela ainda assim. Nossos lábios já tomaram um a forma do outro, do mesmo jeito que o travesseiro te acomoda a cabeça na hora de dormir. Eu gosto mais de dormir com nossos lábios colados, respirando o mesmo ar que te faz respirar. O mesmo ar que encontra meu ouvido e me faz arrepiar...
[fimretirado]
Prender as mãos, mantê-las cruzando nossos pulsos. Tenho certeza que elas odeiam os postes e as esquinas complicadas que tentam separá-las. Mal consigo me importar se as palmas estão suadas, ou tremendamente geladas, enquanto simplesmente estivermos de mãos dadas. E carinho, carinho se mostra com mãos, com um leve toque, seja nos cabelos, no braço, na perna, nos pés, ou desenhando a forma do rosto. As suas mãos falam. Aquela mão tímida que quebra a distância de uma mesa para dois, atravessando pratos, copos e saleiros em busca de companhia. Aquela mão que me cutuca discretamente enquanto qualquer um fala, só para que eu saiba que pensamos na mesma coisa. Aquela sua mão que me aperta a cintura, que me puxa com força para levar a minha boca até a sua.
O seu gosto não me enjoa, não me farta, não tem fim. Decorei cada pedacinho da sua boca, você sabe, preciso dela ainda assim. Nossos lábios já tomaram um a forma do outro, do mesmo jeito que o travesseiro te acomoda a cabeça na hora de dormir. Eu gosto mais de dormir com nossos lábios colados, respirando o mesmo ar que te faz respirar. O mesmo ar que encontra meu ouvido e me faz arrepiar...
[fimretirado]
sábado, 20 de setembro de 2008
quase, quase.
[de 24/08/2007]
Cláudia não via um futuro promissor cheirando á óleo e lidando com clientes que bebiam o dia todo. Cláudia não agüentava mais pegar o ônibus mais lotado e agitado de manhã, e voltar no caminho mais vazio e perigoso de noite. Eram tantos os sonhos de vida, que se acabavam ao sentir o cheiro do banheiro que lavaria todas as manhãs, ou de ter que agüentar todas as cantadas e desacatos durante todo seu expediente. Não era a primeira vez que Cláudia era explorada.
Tia Clara,
Desculpa se este papel chegar até as suas mãos com alguns borrões. Desculpa se eu irei te deixar apavorada, saiba que eu estarei bem.
Você sabe tia, nada ta fácil por aqui. Desde que mamãe se foi (já faz 5 anos, o tempo corre), eu tenho tido que agüentar muitas coisas aqui em casa. Coisas que pareciam pequenas, hoje tomam rumos grandes e sérios, e eu resolvi por um ponto final nisso tudo.
Eu sempre tentei cuidar do Fabinho e do Rafa da melhor forma, porém hoje eles ficam o dia todo na rua, e quando estão em casa, estão pra pedir dinheiro que eu consigo apenas vendendo aquelas bijuterias que eu ainda faço. Tenho me matado de estudar pra ver se consigo mudar a história dessa família, e quem sabe um dia, construir a minha. Mas tia, não tenho tido sucesso. Cada dia que passa, as dívidas aumentam aqui em casa, o dono está por nos despejar, telefone foi cortado, luz e água também. Tenho que pedir de vez em quando, porta a porta, alguns mantimentos básicos para ter o que comer.
Só recebo não a cada entrevista de emprego que vou procurar. Por eu ter 16 anos, fica difícil ter alguma oportunidade verdadeira.
E eu sinto falta, tia, sinto falta do carinho da minha mãe, dos conselhos dela, ou do jeito que ela tinha de nunca deixar faltar nada em casa. Batalhadora que não caia jamais. E é neste ideal que eu vou me apoiar daqui adiante.
Resolvi abandonar os meus irmãos, eles não precisam mais de mim. Resolvi abandonar o meu pai, que semana passada cometeu um erro irreversível comigo, um erro que eu nunca mais vou perdoar, um erro que eu esperava de qualquer monstro, mais não, não do meu pai.
Estava de noite, eu tinha acabado de voltar da escola, meu pai estava em casa, bêbado como jamais estava. Dei um beijo na bochecha dele, e fui pro meu quarto pra evitar brigas. Ouvi ele fechando as portas, e apagando as luzes, eu já estava deitada quando percebi que ele estava entrando no meu quarto. Levantei, pra ver se ele precisava de alguma coisa, ou se ele queria que eu esquentasse a comida. Quando vi, ele havia trancado a porta com a chave, e então, começou o maior pesadelo da minha vida. Talvez tenha sido pior do que ver minha mãe morrendo lentamente com a maior vontade de viver. Nada foi pior do que ver os olhos azuis do meu pai, me fitando como se eu fosse mais uma vagabunda de esquina que ele estava acostumado a lidar. Eu ERA sua filha.
Sim tia, vou abandonar tudo, acho que vou morar de favor na casa de uma amiga que mora em Guarulhos e por lá ficar até conseguir um apartamento de aluguel, sei lá.
Escrevi para você, porque você a única da família que eu ainda mantenho contato, e eu não vou te pedir mais nada além da sua atenção ao ler esta carta, porque eu sei que você também não pode me ajudar.
Espero que você esteja bem, se cuide, ok? Fica com Deus, e não se preocupe comigo.
Beijos,
Cláudia.
Cinco anos depois, ela ainda estava lá. Era mais uma tarde vazia, que passava entre cervejas, cinzas de cigarro, informações sobre ruas e avenidas, e a servir quem a pedia. Estava de costas lavando a louça, e ouvindo qualquer coisa que passava no rádio. O bar estava sem movimento, e a tarde suava calma e lenta. Quando um cliente entrou, e pediu uma cerveja. Cláudia sem virar as costas, foi pegar a cerveja e com ela ainda nas mãos, olhou para o cliente. Era um homem de uns 50 e poucos anos, bem vestido, de olhos bonitos, porém tristes, que num instante de segundo remeteu a Cláudia tudo que ela queria esquecer. Uma lágrima caiu de seus olhos, enquanto os olhos do senhor pareciam arregalados e assustados. A cerveja caiu no chão, e partiu em mil estilhaços, como o coração de Cláudia.
A tarde passou, o bar fechou, nada foi dito. Cliente saiu, cliente entrou, cliente saiu, e as portas se fecharam mais uma vez. No ônibus agora vazio, Cláudia olhava pela janela e via as crianças nos faróis, meninas com saias curtas a cada esquina, velhos jogados na calçada úmida, provavelmente sentindo frio.
Cláudia não queria mais se perguntar o ‘por que?’ de tudo que aconteceu naquela tarde, ela não conseguiria obter respostas. Tudo que Cláudia sabia, é que sua vida até então tinha sido apenas exploração, em troca de mais exploração.
Desceu do ônibus, andou um pouco, chegou em casa, abriu o seu apartamento, deitou na sua cama, trancou as portas, se trancou dentro do seu quarto, apagou as luzes. Dormiu.
Cláudia não via um futuro promissor cheirando á óleo e lidando com clientes que bebiam o dia todo. Cláudia não agüentava mais pegar o ônibus mais lotado e agitado de manhã, e voltar no caminho mais vazio e perigoso de noite. Eram tantos os sonhos de vida, que se acabavam ao sentir o cheiro do banheiro que lavaria todas as manhãs, ou de ter que agüentar todas as cantadas e desacatos durante todo seu expediente. Não era a primeira vez que Cláudia era explorada.
Tia Clara,
Desculpa se este papel chegar até as suas mãos com alguns borrões. Desculpa se eu irei te deixar apavorada, saiba que eu estarei bem.
Você sabe tia, nada ta fácil por aqui. Desde que mamãe se foi (já faz 5 anos, o tempo corre), eu tenho tido que agüentar muitas coisas aqui em casa. Coisas que pareciam pequenas, hoje tomam rumos grandes e sérios, e eu resolvi por um ponto final nisso tudo.
Eu sempre tentei cuidar do Fabinho e do Rafa da melhor forma, porém hoje eles ficam o dia todo na rua, e quando estão em casa, estão pra pedir dinheiro que eu consigo apenas vendendo aquelas bijuterias que eu ainda faço. Tenho me matado de estudar pra ver se consigo mudar a história dessa família, e quem sabe um dia, construir a minha. Mas tia, não tenho tido sucesso. Cada dia que passa, as dívidas aumentam aqui em casa, o dono está por nos despejar, telefone foi cortado, luz e água também. Tenho que pedir de vez em quando, porta a porta, alguns mantimentos básicos para ter o que comer.
Só recebo não a cada entrevista de emprego que vou procurar. Por eu ter 16 anos, fica difícil ter alguma oportunidade verdadeira.
E eu sinto falta, tia, sinto falta do carinho da minha mãe, dos conselhos dela, ou do jeito que ela tinha de nunca deixar faltar nada em casa. Batalhadora que não caia jamais. E é neste ideal que eu vou me apoiar daqui adiante.
Resolvi abandonar os meus irmãos, eles não precisam mais de mim. Resolvi abandonar o meu pai, que semana passada cometeu um erro irreversível comigo, um erro que eu nunca mais vou perdoar, um erro que eu esperava de qualquer monstro, mais não, não do meu pai.
Estava de noite, eu tinha acabado de voltar da escola, meu pai estava em casa, bêbado como jamais estava. Dei um beijo na bochecha dele, e fui pro meu quarto pra evitar brigas. Ouvi ele fechando as portas, e apagando as luzes, eu já estava deitada quando percebi que ele estava entrando no meu quarto. Levantei, pra ver se ele precisava de alguma coisa, ou se ele queria que eu esquentasse a comida. Quando vi, ele havia trancado a porta com a chave, e então, começou o maior pesadelo da minha vida. Talvez tenha sido pior do que ver minha mãe morrendo lentamente com a maior vontade de viver. Nada foi pior do que ver os olhos azuis do meu pai, me fitando como se eu fosse mais uma vagabunda de esquina que ele estava acostumado a lidar. Eu ERA sua filha.
Sim tia, vou abandonar tudo, acho que vou morar de favor na casa de uma amiga que mora em Guarulhos e por lá ficar até conseguir um apartamento de aluguel, sei lá.
Escrevi para você, porque você a única da família que eu ainda mantenho contato, e eu não vou te pedir mais nada além da sua atenção ao ler esta carta, porque eu sei que você também não pode me ajudar.
Espero que você esteja bem, se cuide, ok? Fica com Deus, e não se preocupe comigo.
Beijos,
Cláudia.
Cinco anos depois, ela ainda estava lá. Era mais uma tarde vazia, que passava entre cervejas, cinzas de cigarro, informações sobre ruas e avenidas, e a servir quem a pedia. Estava de costas lavando a louça, e ouvindo qualquer coisa que passava no rádio. O bar estava sem movimento, e a tarde suava calma e lenta. Quando um cliente entrou, e pediu uma cerveja. Cláudia sem virar as costas, foi pegar a cerveja e com ela ainda nas mãos, olhou para o cliente. Era um homem de uns 50 e poucos anos, bem vestido, de olhos bonitos, porém tristes, que num instante de segundo remeteu a Cláudia tudo que ela queria esquecer. Uma lágrima caiu de seus olhos, enquanto os olhos do senhor pareciam arregalados e assustados. A cerveja caiu no chão, e partiu em mil estilhaços, como o coração de Cláudia.
A tarde passou, o bar fechou, nada foi dito. Cliente saiu, cliente entrou, cliente saiu, e as portas se fecharam mais uma vez. No ônibus agora vazio, Cláudia olhava pela janela e via as crianças nos faróis, meninas com saias curtas a cada esquina, velhos jogados na calçada úmida, provavelmente sentindo frio.
Cláudia não queria mais se perguntar o ‘por que?’ de tudo que aconteceu naquela tarde, ela não conseguiria obter respostas. Tudo que Cláudia sabia, é que sua vida até então tinha sido apenas exploração, em troca de mais exploração.
Desceu do ônibus, andou um pouco, chegou em casa, abriu o seu apartamento, deitou na sua cama, trancou as portas, se trancou dentro do seu quarto, apagou as luzes. Dormiu.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Diz quanto vale
O dinheiro que encontro no chão,
A festa do ano novo,
O lugar vazio no ônibus,
Um dia esperado,
Um dia improvisado,
Para qualquer coisa,
sem você.
Então criei meu céu nebuloso,
Tentei não ficar com cara feia
Ao descobrir que desisti da vida
Quando te vi atrás da porta.
- Alô? Mãe, ela me deixou.
- Filho, calma, ela só vai desocupar um lado da cama
e reduzir pela metade
a conta de telefone.
Cortei com serrote a sua parte.
A cama já não serve mais,
tentei que virasse solteira.
Mas ela não superou, virou lixo.
Vendi o carro
Comprei em cigarro e café
Vendi o carro
Tô andando de cigarro e de café
Vendi o carro
Pela a metade do preço que você sugeriu.
Desculpa?
Embalei o álbum em papel camurça,
- Brother, que eu faço com as coisas que ela deixou aqui?
- Dá embora.
De porre,
Copo na minha mão,
Televisão chiando,
Caneta nos dentes,
Cigarro molhado no café,
Decorei: na foto do buquê seu tio avó aparece lá atrás dormindo.
São quarenta e cinco, no total.
A capa azul não me agrada,
Mas o som da festa sim.
Não gosto do seu sorriso da terceira de trás para frente,
Parece forçado e forjado.
Desculpa.
Não vou poder continuar por hoje,
Preciso tomar banho. Não sei.
Amanhã te vejo, ta?
Aonde?
Pode ser lá na dos seus pais,
Aquela décima segunda,
Que eu apareço segurando a sua mão e olhando pra câmera errada.
Até amanhã meu amor.
Eu amo você.
A festa do ano novo,
O lugar vazio no ônibus,
Um dia esperado,
Um dia improvisado,
Para qualquer coisa,
sem você.
Então criei meu céu nebuloso,
Tentei não ficar com cara feia
Ao descobrir que desisti da vida
Quando te vi atrás da porta.
- Alô? Mãe, ela me deixou.
- Filho, calma, ela só vai desocupar um lado da cama
e reduzir pela metade
a conta de telefone.
Cortei com serrote a sua parte.
A cama já não serve mais,
tentei que virasse solteira.
Mas ela não superou, virou lixo.
Vendi o carro
Comprei em cigarro e café
Vendi o carro
Tô andando de cigarro e de café
Vendi o carro
Pela a metade do preço que você sugeriu.
Desculpa?
Embalei o álbum em papel camurça,
- Brother, que eu faço com as coisas que ela deixou aqui?
- Dá embora.
De porre,
Copo na minha mão,
Televisão chiando,
Caneta nos dentes,
Cigarro molhado no café,
Decorei: na foto do buquê seu tio avó aparece lá atrás dormindo.
São quarenta e cinco, no total.
A capa azul não me agrada,
Mas o som da festa sim.
Não gosto do seu sorriso da terceira de trás para frente,
Parece forçado e forjado.
Desculpa.
Não vou poder continuar por hoje,
Preciso tomar banho. Não sei.
Amanhã te vejo, ta?
Aonde?
Pode ser lá na dos seus pais,
Aquela décima segunda,
Que eu apareço segurando a sua mão e olhando pra câmera errada.
Até amanhã meu amor.
Eu amo você.
Do tempo, a gente vira presa. Do medo, a gente se esconde. Da vida, a gente se desespera. De hora em hora, pessoas ficam depressivas e deixam a sinceridade e a loucura tomar conta do corpo e agirem por vontade própria. Em outros instantes, o sentimento verdadeiro se liga às lembranças e gera lágrimas.
No desespero, tudo caminha torto. Na trilha, as migalhas somem e perdemos os sentidos. O vazio nos toma e... adeus, alegria.
No desespero, tudo caminha torto. Na trilha, as migalhas somem e perdemos os sentidos. O vazio nos toma e... adeus, alegria.
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