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domingo, 20 de junho de 2010

cala-frios

Ele pressionava os dedos contra qualquer tecla do piano, que se perturbava em notas pela dor que causava. Lá na última fileira, uma menina sentia os pelos se arrepiarem por debaixo de tantas blusas de frio, que inutilmente trançadas de tricô não seguraram um corpo faiscante.

domingo, 13 de junho de 2010

um pó de prilimpimpim

que vem nos seus pés folgados em tênis folgados, perto de um coração que deu uma voadora em um copo de cristal recém colado com cola tenaz. Quanto mais um fragmento fragmenta-se, mais o abstrato pode ser alcançável. E quando esse coração que aqui vos escreve, calejado de tanto apanhar tomar uma forma desconhecida, assutar-se-ão. Todos. Menos eu. Que estarei preparada pra você.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

ei, Mundo

Quando parou para se observar, não estava mais. Não estava mais onde tinha se deixado. Não estava para que pudesse ser buscado.
E agora, Mundo? Você ainda pode enxergá-lo?

"Estou aqui mais uma vez. Ou melhor, não estou. Mas quase estive um dia. Sempre quase. Quando tentei acreditar que o coração fosse algo que fizesse sentir, tentei acreditar no que pensava ser mais bonito. Agora não saio mais dessa minha verdade apagada que me faz desaparecer perto de qualquer tentativa de me resgatar do fundo. Sim, Mundo. Estou cada vez mais longe da superfície. Não sinto mais as minhas mãos - Não sinto mais. Ainda não sei se é pelo frio que vem de fora, ou esse que guardo aqui, esse que vem de dentro. Quase nevando. Branco. Neve. Nada. Me faço presente na maior ausência existente e sei que isso deveria doer. Mas, Mundo, disso eu já não sou mais capaz."

Tudo estava escrito em silêncio, e era impossível de ouvir.

sábado, 5 de junho de 2010

santa chuva

"Quem foi que te ensinou a rezar?
Que santo vai brigar por você?
Que povo aprova o que você fez?
Devolve aquela minha tv que eu vou de vez."

M.Camelo

nem uma cigarra sequer

Em meio a essa quietude, decido que é hora de parar de pensar se isso ou aquilo é socialmente errado. Já não ligo pra isso. Não sei, acho que comecei a entender que a felicidade, muito mais do que um estado de espírito, é uma questão de tempo. Estou com frases guardadas na garganta já faz algum tempo. Direi-as quando for a hora, e se ainda tiver sentido. Sentido este que muitas vezes é somente complemento, o que vale mesmo é continuar andando. Quem quiser me acompanhar, que me dê a mão, pois em meio a esse silêncio premeditado, eu já não consigo mais parar. Seguir em um ou dois é só uma questão aritmética, mostrando que não importa estar junto, mas sim estar em constante pensamento.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

exatamente agora

Não é de agora essa historia louca, que anda de boca em boca até cair na do povo. Não é de agora o tempo passado, que virou pó no meio do vento e voltou assoprado de mala e cuia com memórias que a mente talvez quisessem ter apagado. Não é de agora os dias do adeus que o telefone deixou de tocar anunciando uma voz conhecida do outro lado de uma linha. Não é de agora o dia do sol da manhã que o peito estufa e clama por um bom dia que não chega na tal vida a ser vivido. Não é de agora e nem de sempre as lembranças com suas impressões, textos e fotografias a serem guardados na minha caixa perdida com tranqueiras realistas. Não é de hoje que eu quero escrever. Não é do futuro que eu quero viver. Não é do passado que falta esquecer. Não é de agora que eu quero saber.
É de sempres e nuncas.
De pelos e nucas.

De mim
e de você.

domingo, 16 de maio de 2010

lista de impossibilidades

- eu quero ouvir música sem apelo vocal.
- ler livro sem apelo moral.
- ver TV sem apelo sexual.
- beijar alguém sem apelo casual.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

canecas de chocolate quente

Tenho comido mais, devorando o frio do outono.
Dando bola fora, pensando que sei alguma coisa de coisa alguma.
Ninguém quer estar sozinho quando o inverno chegar.

sábado, 8 de maio de 2010

esvaecer

O mundo é tão pouco meu, 
que essa parcela insignificante do que me pertence 
as vezes parece se dissolver por completo. 


E essa parte tão pouco minha das coisas vai pra onde?

quarta-feira, 5 de maio de 2010

another forever

Virei antagonista. 
Só não sei se sua. 
Só não sei se minha. 
Só não sei se dela.

Qual a nossa música tema?
Só não sei se a sua e dela. 

A sua e minha. 
Ou a minha e a dela.

Quem se ama nessa história?
Você ainda ama ela? 

Eu sei que te amo agora, 
porque amo um pouco ela.

Se ela te fez assim agora, 

quem sou eu pra falar mal dela?

Ainda bem que eu não fui ela antes.
Porque se não agora ela seria eu, 

e eu seria ela.

E você continuaria sendo você, 

com qualquer uma das duas.

E não vai demorar:
cairás sobre nós 

a quarta pessoa.


Só não sei sobre quem primeiro:
eu, você ou ela?

domingo, 25 de abril de 2010

ainda que sem arco-íris

Que chuva linda - ela pensou – olhando para aquele céu que parecia o palco de um teatro. As nuvens se vestiram de cortinas para apresentar naquela tarde cinza um espetáculo jamais visto – o espetáculo da solidão que sorria. Aquelas gotas representavam as pessoas que passaram, feito garoa fina. Houve atores ruins, não souberam mentir. Esses bateram de cara no vidro da janela, sem muita força, e escorreram. Outros ainda tiveram seus minutos de fama, foram granizo, fizeram barulho. Mas todos caíram no final. E ela ali, assistiu ao espetáculo sozinha e sorrindo, afinal, esse era o tema da peça. Acendeu seu cigarro e ficou lá, vendo os atores caírem por entre as cortinas de nuvens. Apreciou todas as cenas passadas e refletiu sobre a moral da história. Sorrindo, na sua solidão tema da tarde cinza.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

a fresta de não sei onde, o raio de não sei o quê

Um fio cor de sol atravessava a sala escura. Nasceu na parte baixa do chão esquerdo, se estendia em forma de arco e morria mais laranja do que o começo na outra ponta, tal como um arco íris de um único tom. O laranja era uma linha curva e nada mais. A sala que desde sempre nunca teve janelas, portas ou pessoas, estava destinada em ser apenas uma sala de quatro paredes que juntas representavam um quadrado. O quadrado pouco cíclico, formado por cantos que nunca iriam se juntar, ângulos que dentro daquele quadrado eram tão iguais. Até o dia em que um fio laranja atravessou a sala escura pela primeira vez. O pequeno clarão produzido por aquela novidade encheu a sala de outra coisa que não o negro. Era uma luz bonita, sedutora, e em cada canto da sala era visto um degrade diferente. Agora era uma sala escura com o fio da cor do sol.

domingo, 4 de abril de 2010

a menina que pontuava

Quando menina, brincava e sonhava. Jogava com o vento, chorava na estrada. Diferente de todas as outras meninas, foi crescendo lentamente. De vez em quando, a mente estacionava e o corpo espichava. Era uma correria danada para tentar entender. Novidades, mudanças, responsabilidades. Ainda menina, aprendeu a pontuar. Começava uma história, a vivia, e colocava o seu ponto final. Sua vida fora um livro de crônicas. Abriam-na, lia um capítulo e ponto final, ali terminava uma história de criança.

Nunca deixou de pontuar. Andava para lá e para cá aflita, roendo as unhas, comendo brigadeiro, escondida em seu paradeiro de quatro paredes. Sentava atrás da porta e sorria. Ouvia sua música preferida no último volume e cantava, acelerando e aumentando a voz a cada refrão. Duas vezes. Atrás da porta também chorou, como sempre, suas lamúrias. Ficou doida. Passou por dificuldades. A porta era sua amiga. Ali, aquela madeira sem tinta e sem vida, era sua melhor amiga. Nela, espelhava e vivia. Dançava e pulava, fazia suas caras e bocas. Se enraiveceu. Xingou a porta. Ela ficou de lado. Era o sinal da nova fase, do outro capítulo. Ponto na crônica. Era uma vez.

Mais crescida, abandonou a imaginação. Pegou e sentiu o real em um tapa que, de soslaio, a assustou. Resolveu procurar e enxergar. Andou sozinha, de mãos abertas para o vento. Voou com ele. Sentiu seu coração desacelerar, a tristeza chegar, o amor nascer, a doidera crescer. Já tinha lá os seus 16 quando descobriu a paixão. Bebia sem parar. Sua nova amiga já estava lá. Resolveu parar. Tinha uma vida e uma história nova para formar. Jogou um ponto e foi feliz para uma nova aventura, que poderia ser grande, diferente e final.

A história já começou pontuada. Foi toda errada. Indisciplinada. Sábia. Demorou tempo demais para se formar. A ingenuidade batia à porta e dizia que era companheira e confortável. Abraçou a causa. Fechou os olhos para aquilo que o mundo jogava em sua cara. Rebatia, assustada. Acreditava nas pessoas. Acreditava. Uma astróloga pegou a menina em um bate papo descrédito. Narrou o seu nome de muitas letras. Contou sua idade. Refletiu e olhou assustada. "Você sabe o que te espera daqui pra frente, não sabe?". Com uma lágrima limpa escorrendo na face, enrubesceu, apoiada na mesa com o peito dilacerado. Era um novo tempo. Um tempo que não era seu. "Cuidado, garota de roupa vermelha. Você tem um dom, não o jogue fora. Não o enterre". Pode deixar. "Seu erro ainda vai ser confiar nas pessoas com facilidade demais". A menina já sabia. Já sofria. Já escondia. Era hora do ponto, mas este ela quis segurar.

Em devaneios de pesadelos, suores noturnos anunciavam o futuro mais que certo. Era tempo de sofrer sozinha. Era tempo de abraçar o orgulho. Era tempo de ser viva. Nunca mais a garota iria confiar em alguém. As vestes tristes diziam que ela seria esquecida um dia. Estava escrito. Ela sabia, porque ela podia ver. Ela via pessoas, ela ouvia conversas, ela fofocava assuntos, ela jogava o maduro. Foi de galho em galho que descobriu um jeito de sair dali. Acreditou que não era preciso viver de passado. Pontuou, de forma brusca e exata, mais uma crônica. Acreditou.

Começou a jogar e a dançar a lambada das mentiras. Jogou aqui, jogou acolá. Conversou com quem quis sem se mostrar. Descobriu verdades profundas, descobriu medos passados. De tempo em tempo, o ponto lhe voltava à mente, mas sempre fora esquecido. Esse último, de tão importante, ficou imponente. E tudo foi passando. A garota foi deslumbrando. A outra parte foi se mostrando. O mundo foi abrindo. E é assim, no gerúndio mesmo, na vida andando, que ela descobriu que não podia controlar aquilo tudo. Era jeito. Era identidade. Era criação. Era insegurança. Era a vida entrando pela antiga porta.

Ta aí. Uma nova história, um novo caminho, um novo percurso. Com tudo mais claro, desconfiada, segue no trabalho. Quem sabe, assim, ainda querendo ser amada, um dia não cai em um achado, desolado, querendo seu abraço. É primavera e eu te amo. É verão e eu te odeio. É inverno e eu preciso. Virou primeira pessoa, virar história real. Ainda sonha.

Essa garota, esquecida do seu ponto que não termina, começou essa nova jornada. Sentou atrás da porta desenhada. Sorriu para todas as suas mais doloridas mágoas. Tomou o seu banho. Sorriu de novo e de novo, e ainda não deu ao livro um fim.