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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

em segundos

E já estava planejando como escreveria sobre estar sentada esperando que algo aconteça para mudar sua vida quando ouviu o sinal de segurança da porta do trem. Ela a viu entrar desajeitada-quase-caindo, com um sorriso tímido e um olhar que - ela não arranjou argumentos para definir o olhar -, e parar sem graça bem a sua frente. Seria irônico e pretensioso demais pensar que aquela seria a garota com quem queria dividir o banco da praça, e toda sua vida? Bom, foi impossível não pensar assim.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

os planos mudaram

- Os planos mudaram - disse Maria.
- Mudaram? - perguntou Beatriz, ansiosa.
- Sim.
- Que planos?
- Os nossos, oras.
- Tínhamos planos?
- Sempre tivemos.
- Planos da vida?
- Da vida! - Disse Maria, com um ligeiro sarcasmo na voz. - Que planos da vida, garota? Não se faz planos para a vida!
- Bem, eu faço, mamãe...
- Você sonha, ambiciona, deseja, inventa, mas não planeja - disse a mulher, num tom categórico.
- Tudo bem, então! - A garota se irritava com os tipos de diálogos que tinha com a mãe. "Como ela pode simplesmente falar como uma tirana, sem ao menos ouvir argumentos, sem conseguir conversar?"
- E você irá estudar fora - continuou Maria, um pouco mais cautelosa agora -, num colégio interno para garotas, no sul da Suíça.
- Estudar fora? Colégio interno? - A garota estava séria, as sobrancelhas se juntando, formando uma só linha.
- Foi o que eu disse.
- E isso não é um plano pra vida?
- Não, não é. É uma medida calculista imediata que não vai alterar tanto o seu futuro. Você simplesmente terminará os estudos lá e depois irá para a faculdade que quiser.
- É a minha vida! Eu não vou!
- Vai.
- Não, mãe! A senhora não entende? Eu tenho amigos aqui, a minha vida é aqui!
- A sua vida não é em lugar nenhum. Você vai.
- Mãe! - Exclamou Beatriz, num tom de súplica.
- E é melhor fazer as malas, o seu avião partirá às três horas. Engula o choro e não proteste, eu sou sua mãe e mando em você. Não tente argumentar comigo, nem por um segundo pense nisso.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

dois mil e dez

Esse ano não ta querendo acabar. E ele foi tão bom. Digo, acho que nunca aprendi tanto. Mas o que acontece que mesmo ele tendo sido assim tão bom eu continuo sendo assim, tão eu? Essa que sempre cai de novo e de novo no buraco negro que tem bem no meio dos pensamentos. Em todos os cantos desse meu cérebro bobo eu vejo saudade, eu esbarro em saudade. Eu quero voltar a ser uma criança, quero parar com as responsabilidades que ganhei nesse ano. Chega. Quero encontrar meus amigos e brincar de policia e ladrão, pega-pega, esconde-esconde. Ou só sentar no banco da praça e ficar olhando pro céu. Alguém, por favor, faz o tempo voltar? Qual a graça de envelhecer? Que 2011 o quê, quero meu 2003 de volta.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

você

Porque quando fecho os olhos, é só você quem eu vejo. Aos lados, em cima, embaixo, por fora e por dentro de mim. Dilacerando felicidades de mentira, desconstruindo tudo o que ja planejei, abrindo todas as janelas para um mundo repleto de borboletas na barriga, ansiedades e beijos. É você quem sorri, morde o lábio. Fala grosso, conta histórias, me tira do sério. Faz ares de palhaço, pinta segredos, e ilumina os caminhos por onde passo todos os dias. É só você.

domingo, 5 de dezembro de 2010

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

sem título

Estou há dias tentando escrever um novo capítulo, e eu simplesmente não consigo. Queria fazer das minhas palavras uma espécie de esboço, onde eu pudesse erguer uma porta dos fundos e descrever uma fuga homérica de todo esse oco cheio de nada em que me perco e me encontro e me confundo e me escondo. Mas é como se eu brigasse com as minhas lembranças e saísse sempre uma casquinha da ferida, fazendo com que sangre novamente. E até que eu aprenda que não sou eu quem devo sair de dentro de mim...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

em dia nublado

Arrastada do asfalto, uma folha dançava com o vento, e foi seguindo música até seus pés. E eu a enxergava de costas, esperando. Apenas isso, ela esperava por mim. Parei alguns segundos, só para assistir alguém que esperava por mim. Depois um cinza frio pintava o céu, e alguns engasgos de trovão pediam chuva. Eu me aproximei, e ela me sentiu. Virou-se e me sorriu. Apenas isso, ela me sorriu.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

conselhos (de botas e calos batidos)

Não, amigo. Não é assim. Não é assim que você vai mantê-la aí, do seu lado. Não com essa força no abraço. Abraço que segura. Abraço que sufoca. Amigo, me escuta. Eu sei o que eu to falando. Eu a conheço bem. E eu sei que você gosta muito dela. Por isso, amigo, me escuta. Não é assim não. Não com essa sua fome de amor. Não com essa sua vontade de engoli-la. Não com essa vontade toda de fugir com ela por cima dos ombros. Amigo, peraí. Me escuta. Ele não é troféu. Ela não é segredo. Ela não é pertence. Ela não é sagrada. Ela tem defeitos – você não vê? Ela tem vida. E vive. Ela vive. Você não quer ver? Amigo, perai, por favor. Me escuta. Você ta indo rápido demais. Volta aqui um pouquinho. Senta. Ouve o que to te falando. Não corre assim pros braços dela. Ela engana. É atriz. É malvada. É insana. Ela cansa. Ela usa. Amigo, eu to te avisando. Volta aqui, por favor. Amigo? Amigo? ...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

considerações finais

Às vezes, os medos nos abraçam forte; eles vêm por trás, de pés descalços, sem barulho algum para nos envolver. E quando isso acontece, a tendência nos leva pelas últimas dores, e um vazio imenso se abre por dentro. O medo sempre esteve comigo. No começo era de chegar a um ponto limite. Medo de se entregar. Medo de dizer mais do que a sensatez permite. Mas, depois que já se estava entregue, o medo era de tudo terminar. No fundo, o medo sempre era o mesmo. O medo é sempre o mesmo: da mudança depois que já se vê acostumado. Hoje eu tenho medo do novo. Tenho medo de me mudar. Depois, de chegar a um ponto limite, enfim me entregar completamente, e tudo acabar - mais uma vez.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

de mãos frias

O que me dói nessa hora são minhas mãos. Mãos de poeta, escritas e impulsivas. Letras feias, rabisco. Mãos de gente, que sentem mais que tudo, que alimentam e matam, que transam e que vendem. Que amam. Tudo pelas mãos. E as minhas me conhecem melhor do que eu própria. Doem e resistem falidamente aos textos e ao meu sentimentalismo bobo, assim como agora. E eu amo, sem querer e saber o porquê. Amo as dificuldades, amo a ilusão, a vida nas mãos e no papel, cada vez mais interessante e misteriosa que o próprio viver. E nego-me a qualquer outra maneira de seguir em frente. No momento.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

à impulsividade

Você é uma tremenda babaca, e é assim mesmo, sem um pingo de educação, que eu começo o meu recado. Por sua culpa, e somente sua culpa, eu me remôo por dias, sentindo arrependimento. Por sua culpa eu já disse muitas coisas que não deveria ter dito para muitas pessoas que não mereciam escutar. Você e a verdade fazem de mim uma pessoa pavorosa, que machuca os outros. Eu não gosto de vocês, eu não preciso de vocês, por que vocês ainda estão aqui? Só porque você existe eu me arrependo de ter feito muitas coisas, e eu odeio me arrepender, porque sou orgulhosa demais pra pedir desculpas. Eu te odeio, e é só por sua culpa que eu estou te mandando este recado. Vá pra longe de mim.

sábado, 16 de outubro de 2010

soma de dias

de todos que serão tantos
e a velocidade dos fatos multiplicado por filmes, cafés, estrelas
dividido por provas, trabalhos, correrias
menos alguns minutos de sono
somados a manteiga derretida em cima de um monte de pipocas,
e alguns chocolates,
desse modo, então
enfim
um infinito de você
e
mim.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

primeira quase vez

Foi o beijo demorado que separou a cidade do calor do meio dia e o entardecer, que ia aos poucos apagando a intensidade das cores ao redor. Ela conseguiu sentir o aroma sutil que diferencia uma tarde no parque e um convite para subir ao apartamento misterioso. O tênis foi se travestindo de sapato agulha, preto, deslizado por causa da meia fina que nunca teve coragem de comprar. Foi subindo as escadas para o encontro íntimo - que de íntimo não tinha nada! - Ela sabia o que significava cada degrau deixado para trás, e se tinha a consciência não era íntimo, e nem digno.

Pois bem, ao lado dela na escada o rapaz não sabia que horas eram, não contou quantos degraus faltavam e arrastava os cadarços sem prestar atenção. Enquanto ela, fez e refez a lista mental do certo e do errado, segundo sua mente moralista. Já estavam a dois anos juntos. Tempo suficiente! Ambos maiores de idade e isso deve significar maturidade para encarar esse tipo de coisa. Amavam-se loucamente, e a poltrona do cinema tava ficando pequena pra tanto amor...

sábado, 2 de outubro de 2010

da minha janela

Queria conseguir deixar você saber tudo o que ainda precisa ser curado dentro de mim, com duas das suas palavras mais bonitas, e um dos seus beijos mais calmos. Às vezes, eu gostaria que você visse o mundo aqui da minha janela. Ai você saberia do que eu estou falando. Queria que entendesse meus acessos de seriedade quando alguma frase sua faz meu cérebro pifar. A verdade é que eu odeio esse meu vício crônico de não deixar nada passar, mas foi algo que eu aprendi com meu mundo, enquanto tentava me proteger de mim mesma. E esse é o meu jeito de acreditar em mim e agora em você. Em nós. Bom, talvez eu saiba, de alguma maneira estranha, que talvez nada disso vá funcionar como também eu acredito ser o mais bonito - e mesmo assim, eu acredito -.