"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!"
domingo, 17 de abril de 2011
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Medo do escuro
Sabe quando se sonha estar caindo de um prédio, sem saber ao certo quem te empurrou, e acordar num chute, antes que se chegue até o chão? Ou quando se sonha que se perdeu no meio do caminho, de uma cidade de cores desbotadas, que você não sabe quando-como-porque-ou-onde elas desbotaram, numa rotina que a gente até esquece como se formou? Às vezes é impossível arrumar os porquês, mas se continua andando, ainda que sem sentido. Foi olhando assim que eu aprendi. Parece que é só medo, um puta medo de recomeçar. Mas será que dá para recomeçar? A gente até fica feito um quarto que se torna vazio por causa das luzes apagadas - não se pode ver os móveis, mas eles ainda estão lá.
segunda-feira, 21 de março de 2011
no fim
As luzes apagadas sempre foram mais reconfortantes. O sofá estava macio. O chá estava esfriando. O tempo estava quase parando. No momento presente existiam apenas as silhuetas das coisas e o ruído móvel e longe dos carros passando na avenida. Mas dava pra sentir por traz do pescoço, próximo ao ouvido, o som da folhagem hesitante nas arvores e o piscar das estrelas no céu. Já era Outono. Já não existia mais nada ali, ninguém existia em parte alguma. Levantou-se subitamente junto com o que, pensando inconscientemente, nomeou como uma "sensação vazia e estranha”. A suavidade dessa hora iria se perder pra sempre. Tanta suavidade perdida por esse mundo afora...
quarta-feira, 9 de março de 2011
a música de outra pessoa
Ela morava no décimo primeiro andar, e escondia alguns sentimentos em uma latinha em cima do seu guarda-roupa. A noite sempre se perdia do seu sono. Era ela contra o seu espelho, perguntando se as coisas voltariam a ficar melhor. Nunca parou para pensar como seria começar do zero, até porque o zero nunca havia existido para ela, que desde pequena aprendeu que se começava sempre a contar pelo número um.
O garoto do oitavo andar tinha um topete lindo e sempre vestia um blazer preto de golas levantadas pelo pescoço. Tinha um vício e de madrugada gastava metade do seu maço de cigarros esperando...
Esperar era um verbo que ela sempre dizia ser sem ação, como um substantivo comum. Era camuflado entre os seus, e covarde, pois se escondia em salas de espera, revistas fúteis e relógios de parede. Mas de qualquer forma, ela esperava pelas duas da manhã, quando descia pelas escadas até o térreo, e passava por um rapaz de topete que tinha o costume de fumar pelos corredores do seu andar.
Eles tinham essa mania de fingir não se notar.
Ele pedia o elevador, e ela voltava pelas escadas. Ele alcançava a calçada, e ela chegava em casa. Ele atravessava a rua, e ela abria a janela. Ele acendia um cigarro, e ela afastava a cortina. Ele olhava para ela, e ela olhava para ele. Dois sorrisos.
O garoto do oitavo andar tinha um topete lindo e sempre vestia um blazer preto de golas levantadas pelo pescoço. Tinha um vício e de madrugada gastava metade do seu maço de cigarros esperando...
Esperar era um verbo que ela sempre dizia ser sem ação, como um substantivo comum. Era camuflado entre os seus, e covarde, pois se escondia em salas de espera, revistas fúteis e relógios de parede. Mas de qualquer forma, ela esperava pelas duas da manhã, quando descia pelas escadas até o térreo, e passava por um rapaz de topete que tinha o costume de fumar pelos corredores do seu andar.
Eles tinham essa mania de fingir não se notar.
Ele pedia o elevador, e ela voltava pelas escadas. Ele alcançava a calçada, e ela chegava em casa. Ele atravessava a rua, e ela abria a janela. Ele acendia um cigarro, e ela afastava a cortina. Ele olhava para ela, e ela olhava para ele. Dois sorrisos.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
até quando?
E quem a olhava pensava que queria estar como ela. Parecia tudo tão bem, tão no lugar, tão certo. E era assim mesmo. Fora dela era assim mesmo. Dentro tava uma bagunça. Todo dia quando já deitada começava a separar os pensamentos, arquivar alguns, jogar fora outros, e outros ainda tinha de anotar em um post-it e colocar onde fosse visto, para não esquecer. Todo dia todo esse trabalho e tudo dentro dela continuava uma bagunça. Arrumava tudo de noite e de noite mesmo bagunçava. Era como quando entra um vento forte pela janela e faz voar todos os papéis da mesa. Vento esse que vinha dos seus sonhos, tão profundos e secretos que nem ela mesmo sabia deles - ou não queria saber. Mas isso não importa. O que importa é arrumar de novo e de novo os papeis da mesa - quer dizer, os pensamentos – até parar de ventar – quer dizer, sonhar. E de novo e de novo e de novo.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
dentro de mim
Andei por folhas lindas hoje, elas me fizeram levantar os olhos para além da árvore, para o céu. Mas não era o céu, ou as folhas lindas de hoje. Era eu, perdida dentro de mim, amarrando meus sentidos aos meus sonhos novamente. E agora que eu só queria uma varanda para debruçar, assistir ao escuro dando espaço para fumaça que sai da minha boca dançar... não é a varanda, ou a fumaça que sai da minha boca. Mas sou eu, de vez em quando, perdida dentro de mim.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
em segundos
E já estava planejando como escreveria sobre estar sentada esperando que algo aconteça para mudar sua vida quando ouviu o sinal de segurança da porta do trem. Ela a viu entrar desajeitada-quase-caindo, com um sorriso tímido e um olhar que - ela não arranjou argumentos para definir o olhar -, e parar sem graça bem a sua frente. Seria irônico e pretensioso demais pensar que aquela seria a garota com quem queria dividir o banco da praça, e toda sua vida? Bom, foi impossível não pensar assim.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
os planos mudaram
- Os planos mudaram - disse Maria.
- Mudaram? - perguntou Beatriz, ansiosa.
- Sim.
- Que planos?
- Os nossos, oras.
- Tínhamos planos?
- Sempre tivemos.
- Planos da vida?
- Da vida! - Disse Maria, com um ligeiro sarcasmo na voz. - Que planos da vida, garota? Não se faz planos para a vida!
- Bem, eu faço, mamãe...
- Você sonha, ambiciona, deseja, inventa, mas não planeja - disse a mulher, num tom categórico.
- Tudo bem, então! - A garota se irritava com os tipos de diálogos que tinha com a mãe. "Como ela pode simplesmente falar como uma tirana, sem ao menos ouvir argumentos, sem conseguir conversar?"
- E você irá estudar fora - continuou Maria, um pouco mais cautelosa agora -, num colégio interno para garotas, no sul da Suíça.
- Estudar fora? Colégio interno? - A garota estava séria, as sobrancelhas se juntando, formando uma só linha.
- Foi o que eu disse.
- E isso não é um plano pra vida?
- Não, não é. É uma medida calculista imediata que não vai alterar tanto o seu futuro. Você simplesmente terminará os estudos lá e depois irá para a faculdade que quiser.
- É a minha vida! Eu não vou!
- Vai.
- Não, mãe! A senhora não entende? Eu tenho amigos aqui, a minha vida é aqui!
- A sua vida não é em lugar nenhum. Você vai.
- Mãe! - Exclamou Beatriz, num tom de súplica.
- E é melhor fazer as malas, o seu avião partirá às três horas. Engula o choro e não proteste, eu sou sua mãe e mando em você. Não tente argumentar comigo, nem por um segundo pense nisso.
- Mudaram? - perguntou Beatriz, ansiosa.
- Sim.
- Que planos?
- Os nossos, oras.
- Tínhamos planos?
- Sempre tivemos.
- Planos da vida?
- Da vida! - Disse Maria, com um ligeiro sarcasmo na voz. - Que planos da vida, garota? Não se faz planos para a vida!
- Bem, eu faço, mamãe...
- Você sonha, ambiciona, deseja, inventa, mas não planeja - disse a mulher, num tom categórico.
- Tudo bem, então! - A garota se irritava com os tipos de diálogos que tinha com a mãe. "Como ela pode simplesmente falar como uma tirana, sem ao menos ouvir argumentos, sem conseguir conversar?"
- E você irá estudar fora - continuou Maria, um pouco mais cautelosa agora -, num colégio interno para garotas, no sul da Suíça.
- Estudar fora? Colégio interno? - A garota estava séria, as sobrancelhas se juntando, formando uma só linha.
- Foi o que eu disse.
- E isso não é um plano pra vida?
- Não, não é. É uma medida calculista imediata que não vai alterar tanto o seu futuro. Você simplesmente terminará os estudos lá e depois irá para a faculdade que quiser.
- É a minha vida! Eu não vou!
- Vai.
- Não, mãe! A senhora não entende? Eu tenho amigos aqui, a minha vida é aqui!
- A sua vida não é em lugar nenhum. Você vai.
- Mãe! - Exclamou Beatriz, num tom de súplica.
- E é melhor fazer as malas, o seu avião partirá às três horas. Engula o choro e não proteste, eu sou sua mãe e mando em você. Não tente argumentar comigo, nem por um segundo pense nisso.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
dois mil e dez
Esse ano não ta querendo acabar. E ele foi tão bom. Digo, acho que nunca aprendi tanto. Mas o que acontece que mesmo ele tendo sido assim tão bom eu continuo sendo assim, tão eu? Essa que sempre cai de novo e de novo no buraco negro que tem bem no meio dos pensamentos. Em todos os cantos desse meu cérebro bobo eu vejo saudade, eu esbarro em saudade. Eu quero voltar a ser uma criança, quero parar com as responsabilidades que ganhei nesse ano. Chega. Quero encontrar meus amigos e brincar de policia e ladrão, pega-pega, esconde-esconde. Ou só sentar no banco da praça e ficar olhando pro céu. Alguém, por favor, faz o tempo voltar? Qual a graça de envelhecer? Que 2011 o quê, quero meu 2003 de volta.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
você
Porque quando fecho os olhos, é só você quem eu vejo. Aos lados, em cima, embaixo, por fora e por dentro de mim. Dilacerando felicidades de mentira, desconstruindo tudo o que ja planejei, abrindo todas as janelas para um mundo repleto de borboletas na barriga, ansiedades e beijos. É você quem sorri, morde o lábio. Fala grosso, conta histórias, me tira do sério. Faz ares de palhaço, pinta segredos, e ilumina os caminhos por onde passo todos os dias. É só você.
domingo, 5 de dezembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
sem título
Estou há dias tentando escrever um novo capítulo, e eu simplesmente não consigo. Queria fazer das minhas palavras uma espécie de esboço, onde eu pudesse erguer uma porta dos fundos e descrever uma fuga homérica de todo esse oco cheio de nada em que me perco e me encontro e me confundo e me escondo. Mas é como se eu brigasse com as minhas lembranças e saísse sempre uma casquinha da ferida, fazendo com que sangre novamente. E até que eu aprenda que não sou eu quem devo sair de dentro de mim...
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
em dia nublado
Arrastada do asfalto, uma folha dançava com o vento, e foi seguindo música até seus pés. E eu a enxergava de costas, esperando. Apenas isso, ela esperava por mim. Parei alguns segundos, só para assistir alguém que esperava por mim. Depois um cinza frio pintava o céu, e alguns engasgos de trovão pediam chuva. Eu me aproximei, e ela me sentiu. Virou-se e me sorriu. Apenas isso, ela me sorriu.
domingo, 7 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
conselhos (de botas e calos batidos)
Não, amigo. Não é assim. Não é assim que você vai mantê-la aí, do seu lado. Não com essa força no abraço. Abraço que segura. Abraço que sufoca. Amigo, me escuta. Eu sei o que eu to falando. Eu a conheço bem. E eu sei que você gosta muito dela. Por isso, amigo, me escuta. Não é assim não. Não com essa sua fome de amor. Não com essa sua vontade de engoli-la. Não com essa vontade toda de fugir com ela por cima dos ombros. Amigo, peraí. Me escuta. Ele não é troféu. Ela não é segredo. Ela não é pertence. Ela não é sagrada. Ela tem defeitos – você não vê? Ela tem vida. E vive. Ela vive. Você não quer ver? Amigo, perai, por favor. Me escuta. Você ta indo rápido demais. Volta aqui um pouquinho. Senta. Ouve o que to te falando. Não corre assim pros braços dela. Ela engana. É atriz. É malvada. É insana. Ela cansa. Ela usa. Amigo, eu to te avisando. Volta aqui, por favor. Amigo? Amigo? ...
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