sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Encalhada atrás da linha do horizonte

Ainda sinto os meus pés escorregarem pelo mar gelado de ressaca, que depois de um dia inteiro de turbilhões repousava em um sono tranqüilo. Lembro de ter imaginado o mar com a boca aberta, babando em cima de mim, como quem quisesse se apoiar em uma figura humana para conseguir dormir. Ele observou, entre as algas e palitos de sorvete, que próximo dele havia apenas uma figura avermelhada. Era eu. Sei que naquele instante o mar olhou pra mim, e me encarregou de cuidar de tudo enquanto ele descansava. Precisava certificar que nenhum objeto pudesse entrar no grande mar enquanto esse dormia. Nada deveria ser destruído e nem danificado. Além de observar o balé das ondas, os pequenos peixes e recolher o lixo na sua beirada. E me alertou, por último, que eu não deveria deixar de tomar conta da lua, não deveria deixá-la sair para nenhum lugar. Ela também não poderia ser fotografada, desenhada e muito menos alcançada. O grande mar disse, por último e em tom melancólico, que aquela lua era mais valiosa que os velhos tesouros que nele estavam perdidos. A lua era a única coisa acima dele, brilhante, enquanto todas as outras nadavam em seu estômago. Disse que a lua nada lhe custava, e que da lua nada se comprava. Ela dormia de dia, enquanto ele repousava de noite. Ele realmente a amava, porque sabia que enquanto dormia alguém esperava por ele, mesmo que em vão, mesmo que inutilmente. E foi dormir.

Pude ouvir o ronco em toda a extensão da praia, na qual caminhava enquanto exercia o meu novo trabalho, se assim posso dizer. Eu era ajudante do mar. Melhor, segurança do mar. Acontece que o mar nada disse, e quando tive certeza que ele estava dormindo, comecei a achar que eu era A dona do mar. Se ele ouvisse os meus pensamentos, certamente me engoliria em uma só onda para sempre dentro de seu estômago misterioso. A respiração dele acompanhava as ondas que batiam e saiam dos meus pés. Eu tentava respirar no mesmo ritmo, embora não com a mesma perfeição. Eu, com tamanho deslumbramento resolvi correr entre as inúmeras declarações de amor na areia e os pisoteados castelos de contos de fada. Eu era a dona do mar, e sabia que ele só acordaria quando a lua fosse embora. E como sabia que eles nunca se encontravam não me importei. Gargalhava a minha posição, gozava do maior dos privilégios na qual nenhum dinheiro do mundo pode possuir. Foi o mar que confiou em mim, um ser humano que não chega nem aos seus menores dedos. Se é que ele tinha dedos. Era tudo tão lindo e harmonioso, que resolvi fechar os olhos e sentir as baforadas que o mar soltava em direção à praia. A brisa, a verdadeira brisa era aquela. As toxinas me embriagavam, as que cheiravam peixe, as que cheiravam camarão e as que cheiravam simplesmente suas águas. Sempre me disseram que água não tinha cor e essa era mais um motivo para que eu acreditasse que eu realmente era a dona do mar. Eu via as cores, dezenas delas, milhares! Eu sabia todas as cores do mar, e ele sabia de que cor eu era. Eu era vermelha.

Entre pulos e danças, percebei com exaustão que a brincadeira já não estava tão gostosa. Os meus olhos pesavam mais que os meus pés, e os meus cabelos estavam grudados de pequenos grãos cor de bege. Avistei o último castelo de contos de fada em pé, e repousei a cabeça sobre ele. Nos últimos segundos que precediam o meu sono mais profundo, eu olhei sem querer para lua e lembrei a promessa que tinha feito ao mar. Que tomaria conta dela. Mas era tarde demais, o meu raciocínio ficou pela metade e adormeci.

Acordei com a falta de respiração, e o gelado em volta do meu corpo. Estava desnorteada e não conseguia gritar. Estava claro, lá ao longe o sol brilhava intensamente contra o meu desespero. Enquanto eu me afogava lentamente, o mar cessou com as ondas por um instante quase imperceptível e deixou as ondas deslizarem sem espuma até o fim. As ondas pararam e o sol brilhou no brilho mais forte que já tinha visto em toda a minha vida. Então vi as cores, as verdadeiras cores do mar. Não era nada do que eu tinha visto de noite, eram perfeitas e únicas. Formavam juntas as cores dos olhos do mar. Quando percebi tal fenômeno, o meu tempo já havia reduzido ao meu último pensamento:

Estava ali, a amada lua em forma de sol. Ela protegia o mar de noite, e deixava de brilhar por algumas horas apenas para que esse pudesse descansar. De dia, a lua virava sol, e o brilho era tanto que ofuscava as suas idéias, e o mar em retribuição ao amor a ele dedicado, refletia cores em tons azuis e verdes para que o sol se acalmasse enquanto não poderia virar de novo lua. E o ciclo continuava todos os dias, e de novo, de novo, de novo... Ele amava tanto a lua que pedia todas as noites para que alguém a observasse para que ela não se sentisse só. E são tão poucos aqueles que conseguem trocar o sono para uma observação nata do amor mais puro que já pode existir. São poucos os que abdicam de todos os poderes de castelos de contos de fada para não deixar a lua, tão generosa, escapar. Não consegui entender a mais simples das lições: Era a lua dona mar.

E nos meus últimos segundos, já não enxergava mais nada.

Por fim, para mim, nem azul e nem vermelho. A escuridão.

Um comentário:

  1. "São poucos os que abdicam de todos os poderes de castelos de contos de fada para não deixar a lua, tão generosa, escapar."

    só deixa escapar quem desconhece seu valor. e quando o percebem, acham que já é tarde.

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