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sábado, 27 de fevereiro de 2010

aquela puxadinha pro lado

Fazia muito tempo que eu não tinha vontade de sorrir para nada nem para ninguém, então era extraordinário que ela conseguisse perturbar assim o canto de meus lábios.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

carta de despedida

Eu abri a janela para que o ar arejasse as palavras difíceis que vou te escrever. Desesperada, tentei despejá-las ao vento para desviar o destinatário. Tentativa falha essa de querer separar do remetente o que se preparou durante meses para dizer. Nada é invenção, não quero fazer essa história virar poesia. Não tenho mar para descrever um encontro, só água suja indo para o ralo, agora.

Meu desejo era que você não me reconhecesse pela a caligrafia, e lesse essa carta como a de um desconhecido com o coração estraçalhado. No fim vou selar o envelope comigo na parte de fora dele, na tentativa de afastar a pessoa que um dia você conheceu, a fim de me tornar apenas mais uma página da sua vida, literalmente.

Tomei o cuidado para que por dentro você estivesse mais confortável, quando essa hora chegasse. De todas as outras cartas, essa é a única que não comecei com a habitual saudação. Troquei as canetas, o papel e não coloquei data. Tome-a como eterna, porque resolvi que assim vai ser. Só de sentir uma fresta de sol no meu olho esquerdo eu sei que nem te escrevo mais do mesmo lugar. O que quero dizer, desde o início, é que essa é uma carta de despedida definitiva. Tomei a liberdade de me despedir por você e por mim. De você, e de mim.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

E como se fosse a única a reparar na beleza da vida de tudo,
ela andava.

E foi andando, como mais uma entre tantos.
Entretanto ventava de dentro pra fora, e sabia disso.
Só não sabia o que era, mas preferia não dar nomes.
Nunca gostou de nomes, por isso tanta coisa era coisa.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

para o que importa e que não comporta mais

Talvez eu continue molhando o meu rosto. Continue porque vejo tudo, e apenas me convido a fingir não ver. Os olhos fechados ainda sentem dor. Desistir seria então abrí-los. Desistir seria então ter coragem de afastar da visão aquele tão acostumado quadro mal pintado. Talvez eu continue molhando o meu rosto. Continue porque me deixo levar pelo mal gosto, e para onde só sei amar. Quando eu mudar, voltarei para trás, para quando antes eu não molhava o meu rosto, e quando antes do antes, meus olhos estavam sempre abertos.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

diário

"Que coisas são essas que me diz sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer? Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confusa, perdida, e sozinha, minha única certeza é que cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço. Como pude cair assim nesse poço fundo? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar. Quero beber tua água.
Não te negues, minha sede é clara."

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

artimanhas ruins

Que vergonha, a maldita torcia para que ele tivesse a mesma sensação de falta que ela. Seu corpo pedia mais um pouco de velocidade artificial. Procurava nos assuntos proibidos uma maneira de construir sua armadilha. Eram com cutucões e alfinetadas de indiretas que pretendia pendê-lo para a tentação. Ela não havia se cansado, muito menos sentido o perigo soprar sua nuca, ainda era apenas um calafrio usual de dias gelados. Mais um cigarro, pensou, acendendo mais um cigarro teria tempo suficiente para atravessar o espaço que separava os pensamentos dela para os dele. Ela tinha que ganhar no silêncio a cura de um mal psicológico, antes que o psicológico se tornasse físico. Essas idéias que ela carrega são os inimigos. Esqueça-as, que vergonha!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

prevenção

Percebeu que tinha alguém no canto, então colocou seus óculos pra enxergar. Se aproximou e:

- Oi.
- Vai embora.
- Mas... eu só te disse "oi".

Os dois se encararam enquanto ela virava aquele copo com gelo e água (como ele preferiu pensar).

- Não importa o que você disse: falar comigo ou tentar entrar na minha vida, seja lá de qual jeito for, já significa que você vai sair dela. Estou poupando trabalho para ambos os lados. Vai embora.

Enquanto ela pedia outra dose ele tentava entender o motivo. Porque aquela menina, que não passava dos 20, poderia afirmar de forma tão segura que todo mundo sumia da vida dela? Ela parecia ser tão divertida, intelingente, sincera - e era! Era tão bonita. Como poderia afirmar que ele iria embora? E ai ele foi. Mas foi sem entender. É, disso ele tinha certeza: ele não entendia!

Nem ela.