segunda-feira, 27 de março de 2017

Eu queria te tocar agora. Da mesma forma que se toca uma música, acompanhando o ritmo com notas que se seguiriam compativelmente numa contínua melodia. Crescente, sempre crescente, até que se acalma para um fim tranquilo, de pernas e pés entrelaçados... E assim, você e a gente... ficou tudo preso na minha cabeça igual a um bom refrão.

sábado, 25 de março de 2017

Oferece-me suas mãos vazias
enquanto brinca no meu corpo
de cavocar o peito
com uma colher.
Engole todos os pedacinhos de mim
na sua fome de afeto:
foi consumindo tudo
e ficou com um estômago repleto de mim.
Enquanto eu fiquei com ausência 
esparramada na cama
na espera de algo que preenchesse
minhas vísceras 
vazias
como suas mãos oferecidas.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Gosto de você 
até quando fecho os olhos
todos os dias
e todas as horas
preenchendo minuto por minuto
de candura e dor
de contrários avessos
de mudez crônica
de imenso e incorrigível
indelicado e mal-educado
amor.

(engulo arranhado: 
os olhos se embargam
não sei se de sede, fome ou falta
o corpo se esquece ali 
tudo desatina em sincero incômodo 
e tudo se confunde 
enquanto gesticulo frases mal resolvidas: 
balbucio nadas
grunho em mímica
pois não tenho coragem 
de romper o silêncio. 

outro dia eu me larguei encostada na janela do metrô, queria ser conduzida por caminhos retilíneos, queria observar as coisas fora de mim: espiava o mundo passar rápido, espiava o livro da mulher ao lado, eu
queria comer as páginas todas, meu estômago doía de fome, ele queria comer as páginas e me preencher de ecos alheios de um amor fictício. 
e que passa rápido. 


"pula no trem", "pula do trem".
deita na linha e espera. 
morreatropeladaeexplodeopeitooarrastandonochão.
para tudo virar a mesma coisa. 
os pedaços teriam gosto de choro.
daria para raspar
raspar tudo com uma colher 
e colocar em um pote: 
aflição em conserva
era só choro na vida, essa daí: 
o bom sempre me escorre
feito suor no corpo em dia de sol. 
brota dos poros e ensaia a queda
escapa na risada: 
por isso não estou muito de sorrisos
nem de risadas
nem de nada:
não sou de nada
tirando essa troglodice dita amor 
que insiste em me rasgar as paredes 
da boca
e do estômago).

sábado, 25 de fevereiro de 2017

sobre o peso das coisas

Navego sem saber se o que me embrulha o estômago é o curso do barco ou as sílabas que se agitam furiosamente querendo criar falas para sentimentos mal-entendidos. Brotam na garganta com uma voz estranhamente conhecida, mas saem do corpo como que em outro idioma - eu não entendo o que quero dizer a maior parte das vezes.

Both just wanted a happy end,
and they collided into each other. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

impermanência

Que faz meu nome fora da tua boca?

Quisera eu enxergar o que observava teu olhar cansado, que não meu peito descompassado e meu colo ansioso. O que te prende em devaneios, e me embaça frente teus olhos? O que há detrás de minha nuca?


- minha voz soou como um eco: percebo o esforço em voltar e a tentativa de entender as palavras que estouram como um soluço agoniado - 


Desconexos. Bastou alguns segundos para que o silêncio se instaurasse entre nós, criando um vão que engolia as frases não ditas. Nos reconhecemos como dois desconhecidos. Perdidos um do outro e daquilo tudo que podíamos ser e não fomos. 


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

sobre marejar

E agora me pego com água transbordando dos olhos, algo parecido com choro mas que não o é. É marejamento: a prática de limpeza que extirpa por todos os orifícios o que insistia em não abrir espaço. É diferente do choro, pois é como se o choro lidasse com algo que ainda está colado, e esse marejamento lida com o que já descolou. 
Os romanos tinham uma coisinha chamada lacrimatório, no qual marejavam ou choravam dentro e o abandonavam nas sepulturas de quem fora dar uma volta do lado de lá. Uma vez, quando bem mais nova, me deparei com um destes em um museu, e achei que os romanos guardavam as lágrimas para temperar comida. Havia algo de boticário naqueles vidrinhos, mas não entendia que provinham, em grande parte, não do tempero, mas da destemperança. Por achar isso, experimentei chorar sobre o prato de comida uma vez e senti as tripas revirando da angústia que voltava pra casa: a casa da qual havia sido expulsa. No fim, entendi que, chorando ou marejando, as lágrimas são para o abandono. Elas despencam-se em um movimento suicida e espatifam-se nas mais variadas superfícies, manchando papéis de cartas, legitimando o infortúnio da despedida ou da desmedida voracidade com que devoramos nossos afetos.
Mas digo tudo isso porque hoje meus olhos marejam, e não choram. Marejam em uma enxurrada líquida e sem peixes. Sentindo descolar, descosturar, desatar, desmanchar, desabotoar e tudo o que é inverso ao que o verbo se propõe. Todos os excessos que carrego como uma roupa fora de estação. E como tudo o que rompe é dolorido - há melancolias tão físicas quanto um quebrar de costelas - nesse exato momento me pego marejando o oceano interno. Assisto evaporar gota por gota do que na garganta parecia tão sólido - erro comum: confundir o estado das coisas. Sinto que no meio disso tudo houve algo de choro, mas me escapou. Por ora marejo.

Caso alguém escorregue em mim derramada por ai... é que navego de dentro pra fora.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

a ironia de ser forte

é colocar tijolo por tijolo
feitos de 'vai ficar tudo bem'
que quanto mais o muro cresce
mais fica escuro do lado de dentro.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

concerto paulistano

Daria pra escrever um poema sobre estar no metrô ouvindo Vivaldi no último volume. Toda aquela música estava apenas dentro de mim. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Sobre um romance que não existiu

Ela recebeu o sinal: estava nublado naquele domingo.

Mas algo nela achou que isso poderia ser bonito. Que poderia ser o dia 1 de uma longa história, mesmo que estivesse chegando no meio de outra. Ela foi lá, pegou seu melhor olhar, abriu seu peito, e jogou seu próprio Sol naquele domingo nublado. Ela se jogou.

Numa sacola, levou com ela suas melhores intenções, mesmo que escritas em linhas tortas. Levou também seu coração que, mesmo já meio ocupado, ainda tinha espaço. E com ele, ela o acolheu. Dividiu o peso que carregava o outro personagem dessa história (que eu já não me lembro o nome). Havia muito futuro nele. Um futuro que pesava toneladas. Pesava milhões. Pesava a liberdade dela.

As primeiras linhas dessa história já lhe contavam quase tudo que estava por vir. E era tudo nublado. Tão nublado… Que o que ela pensou ser uma longa história, na verdade teria um fim breve, e rúptil. Tanta neblina que teve, que ficou tudo branco na memória.

Teve o fim, e a partir desse fim, nada ficou. Teve o fim. E dessa história, ela nada levou.
Sorriu no seu novo dia 1, deu seu primeiro passo e caminhou.
Leve, livre, nova.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

meteorologias

Fomos como o dia que nos conhecemos - um dia que tinha tudo pra ser bonito, mas nublou.
O sol estava lá, aquecendo e intensificando todas as cores ao nosso redor, mas a neblina se manteve pra umedecer nossos olhos. Os pássaros estavam lá, nos cantando melodias e chamando por amor, mas a neblina não permitiu que esse amor nos encontrasse.
Fomos como o dia que nos conhecemos - um dia que tinha tudo pra ser bonito, mas acabou.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

negar a si mesmo

esse doce que precisa de água
essa guitarra que precisa de silêncio
esse coração que precisa de tempo
essa guerra que precisa de flores
esse quadro que precisa de sentido
essa vida que precisa de destino
esse ponto que precisa de imensidão
essa minha terrível contradição.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

do fim

Eu pensava que estava na areia da praia, mas quando desprendi o meu corpo e perdi o equilíbrio já era tarde demais. Ajoelhei por de cima do concreto bruscamente, e sem êxito nenhum os meus joelhos começaram a sangrar. A dor parecia não ser sentida, a dor física havia abandonado o meu corpo há algumas horas. Anestesiada da minha tristeza, inerte de qualquer pensamento sobre o que eu tinha vivido até ali, eu só tinha aquele momento, e isso era tudo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

de porta aberta

Vou deixar você entrar. Só tome cuidado para não se perder, são infinitos os caminhos, e na sua maioria são escuros. Mas você pode pisar sem medo. Tem lá uma infinidade de coisas para que teus outros sentidos sejam aguçados. Entre, devagarinho, e te garanto que haverá um lugar para seu aconchego, onde descansarás numa tranqüilidade infinita - é o pequeno espaço que ainda não é escuro - e lá estando, sei que serei tomada por um calor absurdo, que vai pulsar o sangue por todo meu corpo, e com um sorriso ligeiro vai me passar pela cabeça que ainda há vida, e que no exato momento que você decidiu entrar, ela se fez mais presente do que nunca. E esse pequeno espaço de luz, invadido por sua luz, tomará outros e outros caminhos dentro de mim, clareando tudo.
Estou, neste exato momento, rompendo o meu constante estado de tédio.
Vem.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

poesia arranhada

Nem se eu houvesse escrito
todas as histórias que já recitei ao banho.
dos romances mais bonitos
e das aventuras que a vida me traria.

Nem se eu houvesse composto
todas as musicas que já ouvi ao sonho,
das melodias mais lindas
e das letras que meu coração dançaria.

Nem se eu houvesse pintado
todos os quadros que já mergulhei às cores,
das tonalidades mais quentes
e das pinceladas que minha boca sorria.

Nada superaria
a emoção que é
você.