quarta-feira, 16 de setembro de 2009

escuridão ilícita

Olhos bem fechados. Havia regras, dentre elas jamais desvendar a cor do olho do outro. Na escuridão as formas tomavam o que minha mão preenchia e nada mais. Nada de aspectos premeditados ou ensaiados, apenas a clarividência do negro. Cabelos soltos, pés descalços, sem nenhum tipo de amarra além das pessoais e secretas. Fui arrastada e a minha calça me fazia deslizar entre outros corpos, que os descobria apenas pela temperatura, a respiração e os estímulos de cegos. Nota por nota, a música nos levou a um cheiro novo. O cheiro nos levava a uma forma de pegar, de acariciar, abraçar, beijar e desmoronar no outro. O primeiro tinha a barba cerrada, a altura equivalente a minha e o jeito mais gostoso que alguém já pegou nos meus cabelos. Deslizou as mãos da minha nuca até o último fio. Trouxe-me para cima. Quis sentir que essência eu trazia, mesmo que manipulada por sabonete e perfume do boticário. Ainda era naturalista, ainda éramos um só. Perdi o tempo que passou. Não lembrei quem ele era, o que fazia, se tinha namorada e qual era a cor dos seus olhos. Esqueci que o via todo dia, esqueci sua idade e até seu sexo. Esqueci o realismo social, esqueci da sua postura, esqueci. Tirar ele de mim foi difícil, enquanto eu estivesse de olhos cerrados não podia ver mais ninguém. Ele. E até o momento do segundo final, antes de abrir os olhos era ele que pulsava dentro de mim. Mas depois os meus olhos se abriram e eu voltei a ter um nome, e um jeito politicamente correto de existir.

2 comentários:

  1. Adorei o texto =)


    Então, passei pra dizer que respondi seu scrap sobre nossos leitores misteriosos no orkut do Álan, porque não consegui mandar pro seu.

    Beijos.

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  2. q delícia!
    ...e depois fala dos meus desenhos. rs

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