segunda-feira, 5 de maio de 2008

Decrescente

A brisa da noite penteou o cabelo dela para o lado, mostrou seu rosto avermelhado e ele, dono da mesma vergonha, se manteve o tempo todo parado. A postos na calçada, esperando os carros passarem, o farol se aliou a eles e resolveu mudar sua cor, parando o tempo em volta. Pronto, sem muito ensaio as mãos se encontraram e a rua se fez livre para atravessar. Mais tarde, seria a chave da porta da frente quem mostraria o cenário do segundo ato.

Capitulo dois: A desconquista

O beijo molhado tinha sabor de decepção temperado à falta de atitude, o sofá não era tão macio e o silêncio ensurdecedor feria os ouvidos. Dos beijos que recebia no pescoço, ela refugiou seus olhos na lâmpada acesa, na esperança de que talvez a luz pudesse avisar o mundo, ou quem sabe algum curioso, de que duas pessoas ocupavam aquela sala. Mas a luz fugiu nos dedos frios de um homem tão menino que preferiu se mascarar com o escuro com ajuda do interruptor. A partir daí, se descorreu uma sucessão de erros. A lâmpada desligada vendou a menina. Cega para admirar as qualidades dele, ela passou a tropeçar em tantos defeitos quanto lhe fosse possível, já que no claro - como havia se acostumado - os detalhes que via formava um rosto composto por métricas perfeitas que paralisava os seus pensamentos. Mas agora esse rosto estava perdido no preto, e seus pensamentos corriam junto de um grito surdo, um grito de socorro abafado naquele apartamento. Então a angústia invadiu o peito dela, a angústia presa nos lábios masculinos dele, tão delicados quanto os dela, femininos. A angústia dormiu na menina, a menina dormiu no menino e a lua dormiu no dia.Num dia seguinte com a manhã mais bem vinda de toda a sua vida, o ar condicionado do táxi arrepiou todos os pelos da mesma menina. E olhando a rua e suas composições sem prestar atenção, ela sentia falta do café da manhã que lhe deveria ter sido oferecido com um sorriso escancarado. Distraída com o sabor do suco que cairia melhor com a refeição, confundiu a voz do taxista com a do seu próprio pensamento. De volta para a realidade, ao bater a porta do carro, alegrou-se por estar mais leve, livre para amar outra pessoa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário