sexta-feira, 5 de outubro de 2012

sob a chuva

Deus riscou o céu de cores que cegam, de raios e relâmpagos ensurdecedores. Em meio á cidade cinza os passos se tornaram gigantes, em busca do ultimo metrô a menina corria contra a brisa de chuviscos leves, que levavam a maquiagem embora, mas que em troca lhe dava um resfriado. Corria sem olhar para os lados, até o momento que se achou patética o suficiente para cair no riso que mesmo solitário, fora cumprido e prazeroso. Era bom se sentir linda quando estava na verdade esquisita. Do lado de fora do mundo, ela sentou no meio da calçada e de braços bem abertos quis que cada parte do seu corpo compartilhasse a água decorrente do sol antes forte. Estava tomando chuva de sol, de noite, sem lua, sem estrelas. Os bueiros vomitavam o que de ruim engoliam, e sem escolha, enchiam a cidade proibindo o transito, retirando a luz das lâmpadas e trazendo para todos o calor das chamas das velas que por toda as ruas se acendiam. A menina se dizia menina, mas todos já sabiam que era moça. Seu RG dizia dezoito, ela respondia vinte e dois. Brigavam sempre, ele com razão, ela com vontade de ter nascido antes, mesmo que morresse antecipadamente também. Quando o caos atingiu a sua realidade distante, tudo voltou a ser apático e o pânico de estar bem longe de casa lhe dava um ar desesperador, quase sufocante. Seus sapatos á arrastavam de jeito pesado e lento até algum abrigo. A memória lhe puxou até a bolsa, que sem nenhum trocado respondera a ela o quanto estava em apuros. Já não sabia o que fazer. Não era a primeira vez aquele ano que algo extraordinário acontecia. Estava se acostumando com a desgraça, a chuva aumentava, o frio rebatia, as pessoas não importavam e o celular foi esquecido quando sentara na calçada. Todo prazer uma hora vira prejuízo, e se um supera o outro pouco sabia – ela só tinha dezoito anos, e tudo que se lembrava quando realmente precisava era desses poucos momentos de loucura, uma quase rebeldia instantânea. Um desânimo gigante se estendia, aquela preguiça de segunda feira dava-se agora em uma sexta de noite. Fome, sede, sono, sozinha. Uma menina de blusa vermelha no meio da cidade branco e preto. Aquele choro de saudade da mãe quando dormia na casa da colega, agora, sentia falta de estar rodeada das pessoas feias e desconhecidas que pouco a pouco iam entrando em suas casas. O último metrô já havia ido embora há tempos, outro só de manhã. Uma noite fora de casa pode remeter e trazer muitas coisas na vida de alguém, mas para ela lhe trouxe mais do que isso. Lhe trouxe o futuro, que começaria pouco tempo depois...

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